quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A reforma ortográfica.

Segue abaixo dois textosque refletem bem o que eu penso sobre essa tal reforma ortográfica. que passou a vigorar aqui no Brasil dia 01 de janeiro. Mas antes peço desculpas pelos meus erros ortográficos pois , já nem sei mais se estou escrevendo corretamente, me sinto uma semianalfabeta (agora é assim que se escreve?), Puts! a coisa vai ficar feia prá muita gente.

Reforma ortográfica: não engula este engodo!, por Clóvis da Rolt*

Neste primeiro artigo de 2009, sinto-me tomado por uma indecisão: devo escrever como o Sarney quer que eu escreva? Para os desavisados, não custa lembrar que estão em vigor as novas regras de ortografia para os países que falam a língua portuguesa, o que inclui o Brasil. O feito é resultado das maquinações cerebrais de ninguém menos que José Sarney, que, desde a década de 1990, vinha tentando emplacar a adesão do Brasil à reforma ortográfica.Grandes intelectuais, escritores e estudiosos brasileiros já se manifestaram contra a reforma baseados em inúmeros argumentos. A maior violência da reforma, segundo penso, reside no fato de que ela não considera a língua um elemento de coesão nacional, mas um produto de barganha comercial e geopolítica típico do pensamento pré-inteligível da maioria de nossos políticos.As mudanças parecem simples, mas causarão um estrago de grandes proporções. A reforma de 1971, proposta por Jarbas Passarinho, é um exemplo claro de que três ou quatro gerações não são suficientes para assimilar as alterações na forma escrita da língua. Palavras como “idéia” e “azaléia”, desde o primeiro dia do ano de 2009, perderam o acento agudo e passaram a ser grafadas “ideia” e “azaleia”. Mas e as palavras “meia” e “aldeia” – dirão alguns –, que nunca tiveram acento? Ora, elas continuarão sem acento, só não sei que mágica os professores farão para ensinar a uma criança que está sendo alfabetizada que “ideia” e “aldeia”, embora se pareçam na grafia, distinguem-se na sonoridade pela pronúncia, já que era o acento que cumpria essa função distintiva.
Há vários estudiosos da língua que também aludem à visualidade do texto escrito como argumento central para o repúdio ao acordo ortográfico. Isso quer dizer que inúmeras palavras estão memorizadas em nosso repertório de signos sem que seja necessário sabermos as regras ortográficas ao pé da letra. Isso é muito comum em pessoas que têm o hábito da leitura e que aprendem o código escrito da língua pela visualidade do texto.O que é mais grosseiro neste acordo é a alegação que sustentou suas bases políticas, segundo as quais haverá maior unidade cultural entre os países falantes da língua portuguesa. Não precisa pensar muito para constatar que isso é um descalabro. Alguém é capaz de lembrar qual foi o último romance que leu de um autor africano? (Mia Couto não vale, porque ele está na moda.) Será que depois deste acordo teremos uma avalanche de autores de Cabo Verde e do Timor Leste nas bibliotecas de nossas escolas? Trocaremos uma pós-graduação na França, nos Estados Unidos ou na Alemanha por uma na Guiné Bissau, já que agora estamos – legalmente, diga-se de passagem – irmanados aos africanos falantes do português?José Sarney é mais um sujeito frívolo que bate continência à mistificação globalizante que prega que estamos todos num mesmo caldeirão cultural planetário. Contudo, são ingênuos os que pensam que a língua portuguesa ficará mais fácil sem alguns acentos ou com as novas regras de hifenização; pelo contrário, ela terá uma complexidade a mais, que se refere ao desaprendizado da grafia antiga para a assimilação da grafia nova. Não teria sido mais simples, ao invés da reforma, investir dinheiro público em programas de qualificação do ensino da ortografia da língua portuguesa escrita no Brasil até 2008?Como não sou um sujeito muito integrado ao legalismo que tem a pretensão de comandar nossas vidas, sugiro aos meus leitores que continuem escrevendo como sempre escreveram. A língua não tem certo ou errado, pois ela é uma construção social totalmente arbitrária; se não é fruto de violências colonialistas, é fruto de dominação simbólica. E digo isso baseado num argumento muito simples: quem constrói a língua são os seus usuários e não a lei. Aliás, a própria lei tem como matriz o texto escrito, ou seja, ela é um duplo absurdo. A língua não é um fato primordial que nasce com o sujeito, visto que ela é aprendida, assim como se aprende a comer usando talheres. Tanto uma prática quanto a outra envolvem decisões que estão na base do poder legitimador dos estratos sociais mais fortes sobre os mais fracos. Comer usando as mãos, portanto, não é certo nem errado, é apenas uma forma de comer dentre tantas outras possíveis.No âmbito desta patuscada legalista, uma coisa é certa. Os leitores brasileiros, portugueses e africanos podem ficar sossegados, pois os livros de José Sarney (que também é escritor – pasmem!) não serão encontrados em nenhuma livraria em edições comemorativas ao novo acordo ortográfico. Isso porque sua obra é tão irrelevante para a cultura nacional, que continuará eternamente empoeirada em meio aos tremas e acentos que ele tanto detesta. O máximo que seu intelecto renderá é um busto no átrio das personalidades mais descartáveis da história brasileira.

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2355698.xml&template=3898.dwt&edition=11431&section=1012

Fui roubado!, por Percival Puggina *

Preferiria que me tivessem tomado a carteira. No entanto, os perversos fizeram pior: levaram-me um prazer. Desses ótimos, que não são pecado nem fazem mal à saúde. Sequestraram-me (assim, sem trema), o gosto de escrever, como aprendi e me agrada, para impor-me regras que não aprendi e das quais desgosto. Proclamo-o, portanto, aos meus leitores. Queixo-me ao papa. Lamento-me diante do altar. Fui roubado, Senhor. O Réveillon de 2009 fez sumir pelos ares, como borbulha de champanha, a satisfação que me causava a tarefa cotidiana de colocar ideias (agora é assim mesmo, sem acento) no papel, usando, para isso, vocábulos com a grafia convencionada em 1943, um ano antes de ser expedida minha certidão de nascimento. Levaram-me palavras de estimação, minhas há seis décadas!Poderíamos absorver os incômodos da nova ortografia se nos provassem que escrevíamos de modo incorreto, mas não foi isso que aconteceu. Ficou errado o que antes escrevemos certo. E doravante, se quisermos redigir com correção, teremos que nos familiarizar com outros padrões. Precisaremos nos debruçar sobre as preferências de uns poucos que, por puro deleite, decidiram que a elas deveriam submeter-nos. Quem os constituiu senhores do idioma?Certa feita, estando na praia de Iracema, em Fortaleza, um rapaz de bicicleta passou por mim e, num safanão, arrancou-me o celular. Em reação, esgotei contra ele, aos berros, os piores adjetivos que me ocorreram. Gritei tanto palavrão, tão alto, que o sujeito quase trombou com a bicicleta numa árvore tentando olhar para trás. Naquele momento eu fiquei indignado. É o mesmíssimo sentimento que me move agora, com outras palavras, mas com igual motivação. Estou berrando este artigo e compareço aqui como quem vai à delegacia declarar-se vítima de uma pilhagem.Retorno à demência das novidades que afetarão os hábitos ortográficos de 230 milhões de pessoas. Convenhamos! Seria perfeitamente aceitável o incômodo se, por exemplo, variações fonéticas ocorridas ao longo dos anos tivessem posto a linguagem escrita em desacordo com a falada. Mas isso, onde aconteceu, não está contemplado na reforma. Também seria aceitável se a grafia em vigor até o dia 31 estivesse eivada de irracionalidade, constituindo-se em embaraço para a alfabetização e para o ensino do idioma. Mas não. Bem ao contrário. Imagine, leitor, crianças que estejam cursando as primeiras séries do fundamental. Ano passado aprenderam de um jeito, agora terão que desaprender e voltar a aprender. “Mas vem cá, ‘psora’ – dirão elas –, vocês não se entendem?” Pois quanto mais me empenho em entender, mais aumenta minha irritação, compartilhada por inúmeras pessoas que me informam sua decisão de continuar escrevendo do mesmo jeito. Invejo-as, mas estou profissionalmente impedido de acompanhá-las nessa operação-padrão.“Cui prodest?”, perguntariam os criminalistas se estimulados a investigar as motivações da “disgramada” (eis aí uma palavra que deveria entrar para o dicionário) reforma ortográfica. “A quem aproveita” o acontecimento? Ontem, enquanto um programa de televisão mostrava editoras de livros didáticos rodando exemplares com a nova ortografia, discerni alguns beneficiários. Pois que se regurgitem nos ganhos. Aliás, neste Natal, entre os presentes que recebi, estava um dicionário com a nova ortografia. Tenho 18 e preciso de um novo. Eu mereço? Não, ninguém merece.
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2355857.xml&template=3898.dwt&edition=11431&section=1012

E voces? já se acostumaram com a idéia de escrever ideia(sem acento) daqui prá frente?

2 comentários:

Sandra e Dinis disse...

Aqui para nós (portugueses) tb não gostamos do acordo ortográfico. Deixar de escrever o "c", antes dos T, ou P é um exemplo.

Deviam deixar como está e pronto!

Bjs

Sandra disse...

Lena,

eu ainda não me habituei a certas mudanças na ortografia...

não gostei mt do acordo, não...

Bj grande p si e seus meninos